O que você vai ler a seguir é a crônica de uma morte anunciada há mais de uma década, desde que a internet mostrou que a informação não precisava mais de um meio físico isolado para ser armazenada. Podia correr por fios de forma epidêmica. Inclusive a música.
Estava decretada a morte do CD, mas ela ainda não aconteceu. O assassinato em 2008 está sendo outro, mais preliminar: o das cadeias de lojas especializadas exclusivamente em venda de discos. Vítima exemplar deste crime abundante em testemunhas impotentes, a rede porto-alegrense Banana Records acaba de anunciar o encerramento das operações de sua última unidade em atividade, no bairro Bela Vista. As quatro lojas do grupo eram um dos últimos refúgios de quem buscava novidades do mundo pop sem recorrer aos grandes magazines que também vendem livros, material de informática e mil outros itens estranhos ao mundo da música. Ou de quem não gostava de freqüentar sebos de discos ou lojas underground especializadas em alguns estilos, tão comuns nas galerias do centro da Capital. Em 14 anos de atividade, a rede Banana Records colecionou histórias, como a vez em que a banda norte-americana Red Hot Chilli Peppers fechou a loja da Bela Vista para uma
tarde de compras.
Focada no público jovem das classes A e B, a rede se tornou a protagonista porto-alegrense da explosão do mercado fonográfico brasileiro, entre 1994 e 1999. Em uma madrugada de agosto de 1997, chegou a abrir as portas da loja à 0h1min para atender a uma fila de jovens ensandecidos atrás do novo álbum da banda britânica Oasis, em primeira mão, repetindo uma prática comum apenas em mercados efervescentes, como o europeu, mas até então rara no Brasil. Eram outros tempos: neste mesmo ano, 1997, nada menos do que 15 artistas brasileiros estavam vendendo mais de 1 milhão de cópias cada um. Em 2007, nenhum atingiu esta marca.
Nos últimos cinco anos, no Brasil, a venda de discos caiu de 75 milhões para 25 milhões
Em apenas uma década, o mercado fonográfico mundial - e principalmente o brasileiro - foi do céu ao inferno. Segundo um dos diretores da Banana Records, a queda começou a ser percebida em 2002, quando o grupo ainda empregava 70 pessoas. A análise encontra respaldo nos números da Associação Brasileira de Produtores de Discos. Segundo ela, naquele ano foram vendidos 75 milhões de discos no país. Os números foram caindo até que, em 2007, foi registrada a venda de um terço desta quantidade: apenas 25 milhões de cópias.
O grande trunfo da rede Banana Records, que era ter um público jovem, de bom poder aquisitivo e que se interessava em conhecer música, acabou sendo também o motivo de sua morte. Este perfil de consumidor, apontam as pesquisas em todo o mundo, é exatamente o que passou a comprar ou piratear tudo pela internet. A loja se esvaziou.
- As que sobreviveram ou mudaram de foco ou se reinventaram - afirma Vilson Noer, presidente da Câmara dos Dirigentes Lojistas de Porto Alegre.
Há 20 anos no mercado, a loja Multisom começou a perceber as mudanças no comportamento do público em 1998. Na época, para se adequar ao novo perfil, passou a investir em eletroeletrônicos, que hoje representam 55% das vendas, e instrumentos musicais.
- Antes, tínhamos um público jovem, dos cinco aos 30 anos. Hoje, quem vai à loja tem entre 30 e 60 anos e, em alguns casos, mal sabe usar a internet - diz Francisco Novelletto Neto, empresário sócio da Multisom.
De forma geral, quem se antecipou, atualmente, tem o CD como um coadjuvante da loja. O disquinho espelhado, que durante 20 anos enriqueceu comerciantes e gravadoras, definitivamente, não é mais um bom negócio.
( gabriel.brust@ zerohora. com.br )
Cinco sintomas da morte do CD
1. Do a Radiohead (ou "Fazer um Radiohead", em inglês) virou a expressão da moda, e é usada sempre que um artista decide distribuir música por conta própria na rede, de graça, assim como o grupo inglês Radiohead, do vocalista Thom Yorke, fez no ano passado. Em 2008, as bandas Coldplay e Nine Inch Nails fizeram o mesmo. No Brasil, Tom Zé, Ed Motta e o Cansei de Ser Sexy se preparam para também "fazer um Radiohead"
2. Uma pesquisa organizada pelo British Music Rights sobre os hábitos de download e cópia dos fãs de música comprovou o que todo mundo já sabia: 96% dos fãs entre 14 e 24 anos copiam música ilegal, gratuitamente. Também na Inglaterra, o renomado crítico Norman Lebrecht acaba de decretar a morte da indústria fonográfica, em seu mais recente livro, Maestros, Obras-primas & Loucura (Record, 350 páginas, R$ 47)
3. Com o MP3 suplantando o CD no quesito praticidade, o disco de vinil volta a ser o preferido dos colecionadores e começa a ser fabricado novamente. As vendas dos bolachões aumentaram 36,6% em 2007 nos EUA, vendendo 1,3 milhões de unidades. Nada de espírito retrô: as mais descoladas e modernas bandas de rock estão lançando seus discos também em vinil
4. No Brasil, a queda de vendas de CD foi tão grande que os critérios para se ganhar um disco de ouro, platina ou diamante mudaram. A partir de 2004, as vendas mínimas para ganhar as distinções caíram pela metade: Disco de Ouro foi de 100 mil para 50 mil, de platina foi de 250 mil para 175 mil, e o de diamante de 1 milhão para 500 mil. Nenhum artista brasileiro hoje vende mais de 1 milhão de discos
5. Em Porto Alegre, a Banana Records, a última rede de lojas dedicada exclusivamente aos CDs, anuncia o fim das suas operações em 2008. Na pesquisa anual de intenção de compras no Dia dos Namorados realizada pela Câmara dos Dirigente Lojistas, pela primeira vez o CD não apareceu
Sinceramente: João Lennon
http://br.geocities .com/beachboysbr azil
http://earlybeatles .cjb.net
Estava decretada a morte do CD, mas ela ainda não aconteceu. O assassinato em 2008 está sendo outro, mais preliminar: o das cadeias de lojas especializadas exclusivamente em venda de discos. Vítima exemplar deste crime abundante em testemunhas impotentes, a rede porto-alegrense Banana Records acaba de anunciar o encerramento das operações de sua última unidade em atividade, no bairro Bela Vista. As quatro lojas do grupo eram um dos últimos refúgios de quem buscava novidades do mundo pop sem recorrer aos grandes magazines que também vendem livros, material de informática e mil outros itens estranhos ao mundo da música. Ou de quem não gostava de freqüentar sebos de discos ou lojas underground especializadas em alguns estilos, tão comuns nas galerias do centro da Capital. Em 14 anos de atividade, a rede Banana Records colecionou histórias, como a vez em que a banda norte-americana Red Hot Chilli Peppers fechou a loja da Bela Vista para uma
tarde de compras.
Focada no público jovem das classes A e B, a rede se tornou a protagonista porto-alegrense da explosão do mercado fonográfico brasileiro, entre 1994 e 1999. Em uma madrugada de agosto de 1997, chegou a abrir as portas da loja à 0h1min para atender a uma fila de jovens ensandecidos atrás do novo álbum da banda britânica Oasis, em primeira mão, repetindo uma prática comum apenas em mercados efervescentes, como o europeu, mas até então rara no Brasil. Eram outros tempos: neste mesmo ano, 1997, nada menos do que 15 artistas brasileiros estavam vendendo mais de 1 milhão de cópias cada um. Em 2007, nenhum atingiu esta marca.
Nos últimos cinco anos, no Brasil, a venda de discos caiu de 75 milhões para 25 milhões
Em apenas uma década, o mercado fonográfico mundial - e principalmente o brasileiro - foi do céu ao inferno. Segundo um dos diretores da Banana Records, a queda começou a ser percebida em 2002, quando o grupo ainda empregava 70 pessoas. A análise encontra respaldo nos números da Associação Brasileira de Produtores de Discos. Segundo ela, naquele ano foram vendidos 75 milhões de discos no país. Os números foram caindo até que, em 2007, foi registrada a venda de um terço desta quantidade: apenas 25 milhões de cópias.
O grande trunfo da rede Banana Records, que era ter um público jovem, de bom poder aquisitivo e que se interessava em conhecer música, acabou sendo também o motivo de sua morte. Este perfil de consumidor, apontam as pesquisas em todo o mundo, é exatamente o que passou a comprar ou piratear tudo pela internet. A loja se esvaziou.
- As que sobreviveram ou mudaram de foco ou se reinventaram - afirma Vilson Noer, presidente da Câmara dos Dirigentes Lojistas de Porto Alegre.
Há 20 anos no mercado, a loja Multisom começou a perceber as mudanças no comportamento do público em 1998. Na época, para se adequar ao novo perfil, passou a investir em eletroeletrônicos, que hoje representam 55% das vendas, e instrumentos musicais.
- Antes, tínhamos um público jovem, dos cinco aos 30 anos. Hoje, quem vai à loja tem entre 30 e 60 anos e, em alguns casos, mal sabe usar a internet - diz Francisco Novelletto Neto, empresário sócio da Multisom.
De forma geral, quem se antecipou, atualmente, tem o CD como um coadjuvante da loja. O disquinho espelhado, que durante 20 anos enriqueceu comerciantes e gravadoras, definitivamente, não é mais um bom negócio.
( gabriel.brust@ zerohora. com.br )
Cinco sintomas da morte do CD
1. Do a Radiohead (ou "Fazer um Radiohead", em inglês) virou a expressão da moda, e é usada sempre que um artista decide distribuir música por conta própria na rede, de graça, assim como o grupo inglês Radiohead, do vocalista Thom Yorke, fez no ano passado. Em 2008, as bandas Coldplay e Nine Inch Nails fizeram o mesmo. No Brasil, Tom Zé, Ed Motta e o Cansei de Ser Sexy se preparam para também "fazer um Radiohead"
2. Uma pesquisa organizada pelo British Music Rights sobre os hábitos de download e cópia dos fãs de música comprovou o que todo mundo já sabia: 96% dos fãs entre 14 e 24 anos copiam música ilegal, gratuitamente. Também na Inglaterra, o renomado crítico Norman Lebrecht acaba de decretar a morte da indústria fonográfica, em seu mais recente livro, Maestros, Obras-primas & Loucura (Record, 350 páginas, R$ 47)
3. Com o MP3 suplantando o CD no quesito praticidade, o disco de vinil volta a ser o preferido dos colecionadores e começa a ser fabricado novamente. As vendas dos bolachões aumentaram 36,6% em 2007 nos EUA, vendendo 1,3 milhões de unidades. Nada de espírito retrô: as mais descoladas e modernas bandas de rock estão lançando seus discos também em vinil
4. No Brasil, a queda de vendas de CD foi tão grande que os critérios para se ganhar um disco de ouro, platina ou diamante mudaram. A partir de 2004, as vendas mínimas para ganhar as distinções caíram pela metade: Disco de Ouro foi de 100 mil para 50 mil, de platina foi de 250 mil para 175 mil, e o de diamante de 1 milhão para 500 mil. Nenhum artista brasileiro hoje vende mais de 1 milhão de discos
5. Em Porto Alegre, a Banana Records, a última rede de lojas dedicada exclusivamente aos CDs, anuncia o fim das suas operações em 2008. Na pesquisa anual de intenção de compras no Dia dos Namorados realizada pela Câmara dos Dirigente Lojistas, pela primeira vez o CD não apareceu
Sinceramente: João Lennon
http://br.geocities .com/beachboysbr azil
http://earlybeatles .cjb.net
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