Páginas

sábado, 21 de outubro de 2006

Música em Tons de Azul

Terça-feira, 21 de Março de 2006 - Na década de 60, quando os Rolling Stones estavam no auge da sua popularidade, decidiram gravar alguns temas em Chicago, nos estúdios da Chess Records, a mítica editora de blues. Os Stones eram fãs de bluesmen da Chess, como Muddy Waters, Bo Diddley, Willie Dixon, ou até Chuck Berry, e até o nome da banda tinha sido inspirado numa música de Muddy Waters. Chuck Berry, um dos pais do rock'n'roll, autor de Johnny B. Goode, circulava então pelas imediações do estúdio. Reza a história que, depois de ouvir os imberbes Stones ensaiarem, disparou "You nearly got it", algo como "vocês quase que o compreenderam". Chuck Berry referia-se ao blues, um som que tem as suas raízes profundamente enterradas na África de onde partiram milhares de escravos. O folclorista Alan Lomax, conhecido por gravar entusiasticamente centenas de bluesmen, desde a década de 30, referiu no seu livro The Land Where The Blues Began, que o blues era "notável entre todas as obras de arte humanas pelo seu profundo desespero". O som que dava voz ao sofrimento que prevalecia nos campos de trabalho do Sul dos EUA era ainda desprovido de qualquer instrumento musical e recorria apenas às vozes. A guitarra, hoje indissociável da imagem do blues, só se tornou comum na viragem do século XX. Nas décadas de 30 e 40, os negros do Sul dos EUA começam a migrar para o Norte, tentando deixar para trás a segregação. Cidades como Memphis ou Chicago são os principais destinos. Na grande cidade a guitarra electrifica-se e bluesmen como Muddy Waters, Otis Rush ou B.B. King vendem milhares de discos, ainda que a rádio não passe a chamada negro music e esta não seja vendida nas lojas. O jazz, um dos géneros a surgir do blues, e tocado também por negros, marcava presença nas lojas de discos e enchia teatros. Qual a diferença então? Leonard Chess, um dos fundadores da Chess Records, dizia num documentário que o blues era sexo. Era a sensualidade cantada, dançada e espicaçada. Com o surgimento do rock'n'roll, filho mulato do blues e da tradição do hillbilly country, irrompe também Elvis Presley. Oriundo de Memphis, o primeiro disco que grava é exactamente uma versão de That's All Right Mama, original do bluesman Arthur "Big Boy" Crudup. Presley abre as portas ao blues e estas ficam definitivamente escancaradas quando bandas britânicas como os The Rolling Stones chegam aos EUA, afirmando publicamente que as suas maiores influências são bluesmen como Muddy Waters ou Howlin' Wolf. Fat Possum. Tem o logo de uma doninha gorda a remexer no lixo, grava músicos que já estiveram na cadeia, e os que nunca viram o sol aos quadrados, são responsáveis por episódios mais sórdidos que os elementos dos Sex Pistols e do Rat Pack juntos. A Fat Possum é uma editora de blues invulgar e é, ao mesmo tempo, a responsável por um certo novo fôlego no universo do blues. O presidente da editora e um dos seus fundadores, Mathew Johnson, admite que não esperava que a Fat Possum Records sobrevivesse aos anos iniciais. O então estudante universitário viajava amiúde ao chamado North Ill Country Mississippi, só para ver actuar Junior Kimbrough e R.L. Burnside. Com a vontade de gravar os anónimos bluesmen, fundou a editora. "Estamos no meio de ne-nhures, a auto-estrada só chegou cá há poucos anos", refere Johnson, para explicar a lacuna de gravações de blues do North Mississippi Hill Country. O isolamento ditou que apenas recentemente se começassem a conhecer mais dos blues local, cru, dançável e hipnótico quase sempre. Confesso "odiador de blues da treta como Stevie Ray Vaughan", Johnson tem gravado bluesmen e um estilo em extinção, que não prima pelo respeito por afinações ou grandes performances guitarrísticas. Para Johnson, "este blues está a morrer, e já quase desapareceu". - texto de: Mário Guerreiro

http://cantinho_mario.blogs.sapo.pt/

Nenhum comentário: