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quarta-feira, 4 de outubro de 2006

THE NASHVILLE MARATHON

Ao contrário da maioria dos artistas, você vai encontrar a genialidade de Elvis em detalhes. Em pequenas entonações naquela música que você escuta desde que se entende por gente. Em uma versão recém descoberta da sua música favorita. Naquelas músicas de Elvis que ninguém nunca ouviu, mas que se juntadas em um álbum seriam 10 vezes melhores do que qualquer um lançado na atualidade. Mas, principalmente, a genialidade de Elvis vem à tona através dos takes alternativos de suas músicas que nos dão uma noção da evolução de Elvis o produtor dentro de estúdio. Elvis produtor?? Exatamente. Como disse Jerry Schiling Elvis foi o produtor musical mais subestimado do século passado. Ele produzia todos os seus discos, baseado em uma única coisa: sua quase infalível intuição musical. O problema era quando alguém interferia nesse processo. Sun Phillips, Steve Binder e Chip Momam o fizeram, porém de uma forma que sua interferência potencializou esse dom de Elvis. Outros não conseguiram isso. E, infelizmente, Felton Jarvis está nessa lista. Não que ele fosse um mau produtor. Longe disso. Felton, além de bom, era bem intencionado. O problema é que ele nunca levou Elvis às profundidades que os produtores acima citados conseguiram. Felton apenas contemplou um baú cheio de ouro, sem nunca chegar a usufruir dele. Outro grande problema de Felton que ele, principalmente na década de 70, usou e abusou muito de metais nas músicas de Elvis, o que às vezes o fez desperdiçar várias pérolas.
Mas você se pergunta o que isso tem a ver com o cd The Nashville Marathon??? E eu lhes respondo, tudo. Após escutar esse cd você vai chegar às seguintes conclusões:
1- Elvis era uma máquina de fazer música, e quando possuía material de qualidade e o humor certo, era imbatível.
2- Sua capacidade como produtor ia bem além do técnico, apoiada exclusivamente em sua sensibilidade musical.
3- Felton, na grande maioria das canções, não deveria ter mexido no master, deixando a música limpa e seca.
4- A voz de Elvis estava absolutamente divina e os músicos de Nashville eram de uma qualidade espetacular.
5- Vai ter descoberto várias músicas que você nem sabia que gostava, apesar de escuta-las a anos.
6- Vai desgastar esse cd de tanto toca-lo, pois é de longe um dos melhores lançamentos de Elvis em anos.

Após um triunfante retorno à vida pública, as paradas e aos palcos, e com dois discos de ouro já conseguidos na primeira metade do ano, Elvis que já não gravava nada em estúdio desde fevereiro de 69, tinha que gravar um novo álbum com a difícil missão de suceder o lendário From Elvis In Memphis. Devido a um impasse burocrático estúpido, Elvis não voltou aos estúdios de Chip Momam o American, e sim à cidade que havia testemunhado quase a totalidade de suas gravações na década de 60: Nashville. Isso significava trocar a atmosfera pesada dos guetos que ficavam ao redor do American por uma ambientação mais light de Nashville. Era trocar o Soul pelo country. Mas isso não desmotivou Elvis que, ao entrar em estúdio, em um período de apenas 4 dias gravou quase 40 músicas!! Essas passeavam por todos os estilos, mas sua essência está neste cd: Baladas e country. Ernest Jorgensen justificou a ausência de rocks afirmando os que foram gravados nessa sessão geralmente o foram em apenas um take e que como o material dessa natureza era pouco ele preferiu manter o cd apoiado em dois momentos, o das baladas e o country. Agradecemos pela coerência. Realmente um rock aqui ficaria deslocado. Em compensação a este pequeno detalhe somos presenteados com uma porção de músicas de uma qualidade criminosamente negligenciada. E lembrem-se essas versões aqui não são as definitivas!!! Foi dessa sessão que saiu a maior parte do excelente That´s The Way It Is e o melhor álbum de Elvis da década: Elvis country. E muitas dessas músicas comporiam a grande parte dos melhores momentos de Elvis nos palcos de Vegas alguns dois meses depois. Aqui estão as músicas do The Nashville Marathon:

1- Mystery Train/Tiger Man: O cd começa com uma jam instrumental de uma das melhores medleys da carreira de Elvis, daquelas que botava a casa abaixo quando era tocada nos grandes estádios. Mystery Train era da época da Sun e, junto com That´s all Right, a única desse período que Elvis incluía em seus shows. Curiosidade: ela foi escrita por Sam Phillips. A segunda é um agitado rock gravado por Elvis em 68 no Comeback Special. O interessante é que o próprio Elvis em um show em Vegas deu a entender ter gravado essa música na Sun. O único rock do cd e sem a voz de Elvis. Totalmente deslocado, mas dá uma noção de como Elvis relaxava antes de começar uma sessão. O ritmo aqui está mais lento do que o usado nos palcos.
2- Twenty Days and Twenty Nights (take 3): A sessão de gravação começou com essa belíssima balada. Se você gosta do master vai adorar essa aqui ainda mais. O take aqui apresentado é o 3, e Elvis ainda está um pouco inseguro com a música. A banda também como comprova o início meio esquisito de James Burton na guitarra. Mesmo assim a versão aqui apresentada é simplesmente belíssima. A voz de Elvis está na suavidade ideal, combinado com a letra madura aqui apresentada. Não mais aquelas canções de “garoto se apaixona por garota” da década passada. Essa balada é orientada obviamente para um público mais velho, na faixa de uns trinta anos como o próprio Elvis, então com 35. Engraçado é notar a diferença de uma música como essa que possuía teor parecido com algumas gravadas em 76, por exemplo. Em 1970 a vida de Elvis estava particularmente muito boa, com Priscila ainda em Graceland. Se tivesse sido gravada em 76 com certeza teríamos alguma coisa parecida com Bitter They are Harder they fall. Ganhou duas versões ao vivo em agosto de 1970 e foi bastante ensaiada para a temporada, porém abandonada dos palcos, onde aparentemente não funcionou muito bem.
3- I´ve Lost You ( take 1): Definitivamente uma das melhores músicas da sessão e Elvis sabia. Tanto é que a manteve em seus shows até a turnê de setembro de 70. Foi lançada em single que, inexplicavelmente, alcançou apenas a 32ª posição nas paradas, a pior desde Memories uns dois anos antes, quebrando a seqüência de 5 singles top 20. Segue a mesma linha da anterior. Uma canção de separação, só que aqui a temática é mais explícita, tendo em uma parte Elvis falando sobre um bebê chorando, mostrando que o casal da música obviamente tem filhos. Como demonstrado novamente, balada para adultos e não para adolescentes cheios de hormônios. Muito linda e bem executada e com uma ótima introdução de piano, esse é o primeiro take e soa mais como um ensaio. Reparem como o piano começa timidamente, quase como se fosse parar, mas Elvis inicia a música, talvez como quem dando uma passada geral para ir se familiarizando. Um take mais próximo do original e com todo mundo mais afiado pode ser escutado no também ótimo: A Hundred Years from Now ( Essential Elvis vol. 4). Entra fácil na lista das melhores baladas da carreira de Elvis.
4- The Sound Of Your Cry (take 3): Giant, Baum e Kaye. Por 8 anos essa tríade de compositores assombrou os pesadelos dos fãs de Elvis. Não é para menos, quando sabemos que eles foram responsáveis por grande parte da trilha de Kissin Cousins, Harum Scarum e Paradise Hawaian Style, não coincidentemente as três piores trilhas da carreira de Elvis e, provavelmente, do século passado. São deles pérolas como Beach Shack, Paradise Hawaian Style, Go East Young Man, Do The vega, músicas que fazem Tati Quebra Barraco soar como Vinicius de Moraes. Sério mesmo onde Elvis estava quando gravou esse lixo tóxico musical?? Mas vocês sabem o que The power of My Love (uma das melhores músicas de Elvis), Devil in Desguise, Today Tomorow and Forever, Tender feeling( celestialmente linda!), Edge of reality, You Gotta Stop ( uma das mais genuinamente alegres músicas de Elvis) entre outras têm em comum?? Acertou quem disse que elas foram escritas pela mesma tríade acima citada. Como explicar esses extremos tão claros? Simples. Sinceramente acho que os três não eram maus escritores, mas pecaram por seguir determinações do estúdio e por se acomodarem, afinal todos podemos ser medíocres se quisermos, não é mesmo? Tanto é verdade, que em 1970, os três apresentaram essa verdadeira obra prima: The Sound of Your Cry. A música tem uma letra simples, sobre um fim de relacionamento e sua melodia é uma das mais belas que já escutei. E Elvis aqui simplesmente destrói na interpretação nesse terceiro take, que dura 5:12, e ainda é incompleto, como se Elvis não se cansasse do refrão. Nem ele se cansa nem a gente, tendo vezes que o seu canto é quase um grito de desespero. Simplesmente perfeita. Não tão lapidada quanto o master ou o take disponível na Platinium Box, mas certamente de altíssima qualidade. Claramente, Elvis gostou da música e o porquê de não a tê-la incluído em shows é um mistério. A RCA, seguindo a sua inconseqüente política de lançamentos, negligenciou essa beldade para o lado B de It´s Only Love um ano depois, não só não a lançando em nenhum álbum de Elvis enquanto vivo como também a deixando de fora do disco da Silve Box lançado em 1980 que tinha como tópico resgatar música perdidas em singles!!!! Ou seja, a impressão que dá é que a companhia gravadora de Elvis estava praticamente sabotando a canção. Mas a verdade não é essa. Eles só eram muito incompetentes. E Elvis foi omisso ao deixar passar preciosidades como essa.
5- Bridge Over Troubled Water (take 1): Só existe uma música que consegue seguir The Sound of Your Cry sem parecer ridícula. Paul Simon não sabia, mas escreveu Bridge para Elvis. Com certeza uma das músicas mais queridas dos fãs e do próprio Elvis, que nunca a abandonou de seu repertório, cantando-a inclusive em seu último concerto. No início da década de 70, mais precisamente em 1970 a dupla Simon and Garfunkel lançou um dos maiores clássicos da música de todos os tempos. Uma música tecnicamente perfeita e de uma melodia complexa e assustadoramente divina. Resultado: primeiro lugar por várias semanas e uma entrada triunfal na galeria das maiores músicas já gravadas. Pergunto a vocês, quem se arriscaria a fazer uma versão dessa canção sem parecer medíocre?? Bom, Elvis em junho de 1970 se atreveu e conseguiu o impossível: sua versão é melhor do que a original. Calma, antes que os fãs de Paul Simon me apedrejem, vou me explicar. Claro que ele teve o mérito de escrever a música inteira e sua gravação é excelente, porém Elvis era muito mais cantor que Paul Simon e tinha uma rara habilidade de dar vida a música de uma forma a transformar "atirei o pau no gato" em hino hippie. Pois bem, imagine o que ele fazia com uma canção do porte de Bridge? O resultado saiu no álbum That´s The Way It is e foi fruto de um trabalho de Elvis de por , por uma das únicas vezes em sua carreira, um vocal duplo em uma música, ou seja sua voz era posta por cima dela mesma!! Como se tivessem dois Elvis cantando. O resultado foi unânime. Incluída a a partir da temporada de Vegas de agosto de 70 foi paixão a primeira vista. Os fãs adoraram! O próprio Simon, ao ver o show de Elvis em Nova York em 72 tirou o chapéu para a versão dele. Se o próprio autor admitiu quem somos nós para negar? Esse primeiro take mostra a banda um pouco insegura, porém isso não diminui sua beleza . Para variar, Bridge, novamente, roubando o show!

6- How The Web Was Woven (take 1) - Muita gente pega no pé de How The Web Was Woven afirmando que ela é a música mais fraca do disco TTWII. Bom, justiça seja feita, o disco não possui momentos genuinamente fracos. O que ocorre é que como o nível das músicas é muito bom, a primeira que sai do nível de excelente acaba se tornado a mais fraca. É o caso dessa. Sua melodia é muito bonita, porém sua letra não é lá essas coisas, se comparada com outras baladas do período. Notamos um pouco de conversa de estúdio nesse primeiro take e Elvis dizendo para a banda que prefere que a introdução da música seja feita só com o violão. Elvis ainda não pegou o jeito com a música e a ótima vocalização do fim teria que esperar até o terceiro take, o master. How the Web nunca despertou maiores interesses em Elvis a não ser por uma versão improvisada no piano em ensaio dois meses depois, que acabou entrando para o filme TTWII.

7- The Next step Is Love (take 10)- Lançada como lado B de I´ve Lost you, essa balada pop de boa letra ( falando de um início de ralcionamento, e não fim como a maioria das canções da década de 70) e melodia ganhou apenas uma versão ao vivo, na noite de estréia em Vegas no dia 10 agosto. Comparada com a versão de estúdio a ao vivo, sem alguns metais e bem mais rápida é a melhor. Esse take, um antes do master, é muito bom, possuindo de diferente apenas algumas frases pronunciadas de forma diferente. Claro, sem os exagerados metais de Felton, a música adquire uma nova e singela beleza. Nunca foi feita para ser um hit, porém é um ótimo programa para uma relaxada ouvida de fim de noite.

8- I´ll Never Know (take 1)- A dupla Wayne/Wiseman foi responsável por grandes músicas na década de 60, porém alguns deslizes como A dog´s Life também foram cometidos. Aqui eles apresentam uma balada simples, porém bonita, bem ao seu estilo. Destoa bastante do resto do material da época, talvez pelo estilo dos escritores que de uma certa forma ficou um pouco estagnado e fora das pretensões vocais e artísticas de Elvis nos anos 70. Última música da dupla gravada por Elvis e a última que apresenta ainda uma certa inocência abandonada desde as sessões na American de 69, que deu lugar a material mais denso e adulto. Porém, mesmo sendo simples, Elvis dá um show fazendo dessa balada, um prazer sem culpas. Esse primeiro take de tão bom poderia ser o master. Mas Elvis ainda insistiu mais 6 vezes. Coisa de perfeccionista.

9- Life (take 10)- S. Milete escreveu três músicas para Elvis em 1970, e como suas qualidade eram duvidosa,s indo do ruim ao ok, sua colaboração com The Pélvis parou pr aí. Life é a melhor das três e é uma música única na discografia elvística pelos seguintes motivos: Life tem um ritmo particularmente estranho. Não é balada, não é rock, nem muito menos pop. Posso classifica-la como uma pop-balada psicodélica. Sua melodia é pouco assimilável, mas sem nunca se tornar desagradável ou ruim. O ritmo é irregular, mas ao mesmo tempo não perde o seu crescendo culminando em um ótimo final. E a letra de Life é particularmente intrigante, pois começa falando da origem da vida e do homem(!) só para no final se revelar uma canção cujo tema é algo no estilo “só o amor pode nos salvar(!!!)”. Aqui sim os arranjos de Felton são mais do que bem vindos. Na verdade senti bastante falta deles, principalmente no fim da música. Nesse take Elvis está quase lá, apesar de não se 100%. Mas pensem, depois do que eu enunciei e escutando Life, você a lançaria como um single para promover um álbum?? No máximo e ainda com várias dúvidas tormentosas pairando sobre minha cabeça, a minha resposta é, talvez só no lado B se o lado A fosse muito forte. Pois, a galera esperta da RCA não pensou assim, lançando esse experimento musical, bem interessante, diga-se de passagem, porém longe de ser comercial, no lado A de um single, mesmo tendo músicas como Cindy Cindy, implorando por uma chance. Resultado, a terceira pior posição de Elvis na década estagnada em 53 º lugar.
10- Love Letters (take 1): A versão original de Love Letters foi gravada originalmente em 1945 e foi composta para um filme homônimo estrelado por Joseph Cotton e Jennifer Jones. A primeira versão de Elvis data de 1966 e alcançou o 19º lugar nos EUA, em uma época em que qualquer música não vinda de trilhas sonoras era bem vinda. A versão de 1966 é excelente, com Elvis quase murmurando as palavras de uma forma bem suave. Em 1970 meio que por brincadeira Elvis começou a cantar essa música e resolveu regrava-la. Esse primeiro take começa com Elvis esquecendo a primeira parte da música, o que meio que estraga essa versão. Porém, o começo é bem diferente da versão de 66 e até do master gravado naquela mesma noite, parecendo até outra música. A regravação de 70 encontra Elvis com uma voz mais potente que 4 anos antes e uma pegada musical mais pesada. As duas são ótimas. Caso raro de regravação que compete com a original.
11- Heart of Rome (Take 1): Existem algumas músicas de Elvis que você se pega cantando sem querer, por mais bregas que sejam. Essa é um desses casos. Heart of Rome tem um arranjo mela cueca com uma letra pra lá de brega, porém é impossível não gostar de sua melodia alegre e dos perfeitos vocais de Elvis. Claro que materiais como esse não deveriam ser gravados com tanta freqüência, mas uma vez não mata ninguém. Elvis sempre teve uma forte conexão com a música italiana e aqui ela fica bastante evidente em sua letra e título que cita inclusive Roma. Uma hilária versão foi ensaiada em 24 de julho de 1970, obviamente informal, com Elvis delicadamente substituindo a frase “I´ll make a wish in every fountain” por I´ll take a piss in every fountain”!!!! Foi erroneamente lançada como single, na continuação de uma política fonográfica equivocada que a RCA resolveu adotar no decorrer do ano de 71 e que prejudicou muito as posições de Elvis nas paradas.
12- Mary In The Morning (take 4): Lembram-se do que eu comentei nas linhas introdutórias deste texto que vocês se deparariam com músicas que ouviam há anos, mas que pareceriam novas e se tornariam suas favoritas? Bom, se essa pequena obra prima não se enquadrar nessa categoria, recomendo uma sessão com o psiquiatra mais próximo. Como diria uma crítica americana: “Nós não conhecemos Mary quando acorda de manhã, mas nada mais bonito que a música Mary In The Morning!”. Sem exagero junto com Bridge e The Sound Of Your Cry é a melhor do cd. Essa versão é muito próxima do master o que a torna mais perfeita. Charlie Mc Coy nos brinda com uma gaita simplesmente belíssima, que ressalta ainda mais a beleza da letra, uma das mais singelas, sem ser piegas declaração de amor a uma mulher que eu já ouvi, com trechos como “Nada mais bonito que Mary pela manhã, perseguindo arco íris em seus distantes sonhos” e da melodia que entra redondinha no seu ouvido. A versão original é de Al Martino. Foi muito ensaiada para a temporada de Agosto de Vegas, porém Elvis irresponsavelmente a negligenciou em favor de versões de 1 minuto de Hound Dog. Uma pena mesmo. Falta de visão musical para o Rei em momentos como esse. Um dos melhores momentos de toda a carreira de Elvis e a música favorita de Lisa Marie. Só Elvis mesmo para ter um musicão como esse desconhecido do grande público até hoje.
13- Sylvia (take 9): A parte das baladas do cd termina com uma das melhores, mais escondidas e negligenciadas músicas da década de 70 gravada por Elvis ou qualquer outro cantor da época. Sylvia era para ter sido lançada, coerentemente no álbum Love Letters de 71. Não foi. Tampouco foi lançada como single. Um ano e meio depois de ser gravada, quando todas as músicas da sessão haviam sido lançadas, eis que ela aparece no ótimo Elvis Now. E foi só. Outra pérola ficou perdida na entrançada colcha de retalhos que é a discografia de Elvis. Ponto negativo para a gravadora e também de novo para o próprio Elvis que permitiu ações musicalmente criminosas como essa. Isso porque Sylvia é boa demais para ser uma mera musiquinha de disco. Com uma letra linda e uma melodia insuportavelmente impregnante, Sylvia ainda se vale de uma performance espetacular de Elvis. Sei que já usei esse termo e similares, mas em um cd como esse, a falta de adjetivos positivos é uma coisa normal. Esse take é bem próximo do original com Elvis apenas fraseando uma frase diferente aqui ou ali, o que torna a experiência de ouvi-la ainda mais bela e renovante. Pena que foi esquecida. Bom pelo menos no resto do mundo, porque nós brasileiros não só reconhecemos seu potencial, como a catapultamos para o primeiro lugar de nossas humildes paradas, quando de seu lançamento aqui em meados de 72. Junto com Kiss Me Quick as duas únicas músicas de Elvis a chegarem ao primeiro lugar em terras tupiniquins. Seu sucesso também até hoje se restringe a território brasileiro.
14- It´s Your Baby You Rock It ( take 3): A parte country do cd começa bem com essa música bem para cima. Como Life S. Milete é quem escreveu essa canção que aparentemente é apenas razoável, mas Elvis em plena forma vocal junto com a banda, com destaque para James Burton dão um show! Mostra básica de Elvis em transformar algo normal em uma ótima música. Fez parte do Elvis Country e era a única música realmente nova do disco. Esse take carece um pouco da energia do master, mas é muito bom. Aqui sentimos falta um pouco dos back vocals femininos, que aqui caíram como uma luva. Porém, em um disco com muitas músicas boas It´s Your Baby não ganhou muita atenção, não sendo muito conhecida e apreciada nem mesmo entre os fãs.
15- It Ain´t No Big Thing (take 6): Talvez junto com Just call Me Lonsome, a música mais Country de toda a carreira de Elvis. Pessoalmente, não gosto muito dessa música, pois acho seu ritmo muito arrastado e sem graça, porém para quem gosta daqueles countries americanos genuínos essa é uma verdadeira pérola. Sua letra fala de um cara que está sentindo que sua companheira está lentamente se desapegando dele. Tem boa letra, porém, como disse seu ritmo deixa bastante a desejar. A interpretação de Elvis para variar é perfeita e esse take é bem parecido com o master, sendo novamente o destaque para James Burton, em grande forma. Seguindo a sua irracional política fonográfica, a RCA lançou esse country no Love Letters(!). Se você está coçando a cabeça sem entender nada não se preocupe, você não é o único.
16- A Hundred Years From Now (takes 1 e 2): Lançada pela primeira vez em 1995, 25 anos depois de ser gravada, esse frenético e descontraído country é um verdadeiro achado. Sua letra despretensiosa e sua melodia amalucada são absolutamente contagiantes. Some a isso um Elvis extremamente brincalhão e você terá uma música deliciosamente informal. Talvez por não ter sido gravada de forma séria nunca foi lançada oficialmente. Tanto é verdade que Ernest Jorgensen quando de seu lançamento teve que, para conseguir um master, fazer uma junção de partes dos dois takes disponíveis. O resultado pode ser conferido no terceiro cd da caixa The Essential 70´s Masters. Caberia tranqüilamente no cd Elvis Country. Um dos melhores momentos do cd.
17- Tomorrow Never Comes (take 2): Gravada originalmente em 1944 por Ernest Tubb essa canção deve ter sido um difícil desafio vocal para Elvis, principalmente em seu final que exigia uma entonação de tenor. Como demonstrado neste take Elvis dá conta, e bem, do recado. Nela foram acrescentados pesados metais culminando com um final regido a la orquestra, um pouco exagerado pelo meu gosto. Mas na música como um todo os metais são bem vindos, junto com o acompanhamento dos back vocals. Esse take é bem parecido com a versão final e demonstra que Elvis segurava uma música dessa magnitude sem a presença de pesadas orquestras (apesar do bom arranjo de orquestra incluído no master). Elvis a tentou informalmente em ensaio de julho de 70. Não ganhou lugar nos shows de Elvis por pura injustiça. Ou talvez por ser muito melodramática.Sua introdução lembra bastante Running Scared de Roy Orbison.
18- Snowbird (take 2): Apesar do número absurdo de canções gravadas em junho de 70, em Setembro após ensaios, uma temporada em Vegas e uma turnê, tudo emendado, Elvis estava novamente de volta aos estúdios de Nashville. Porém, Ele estava aparentemente mau-humorado nesta sessão devido a dores que sentia em seu olho, sinais iniciais de um Glaucoma que iria se manifestar com toda força em março do ano seguinte. Pela única vez na década inteira, James Burton não pode comparecer à sessão e foi substituído por Chip Young. O motivo do não comparecimento de Burton foi que a sessão foi marcada de última hora e James já tinha outros compromissos. Apesar do incômodo do olho Elvis gravou quatro músicas de altíssima qualidade. A primeira a ser gravada foi Snowbird, que na época que Elvis gravou estava nas paradas na voz da canadense Anne Muray. Essa é, sem dúvida, uma das mais belas canções de Elvis com uma letra bucólica ao estilo de And The Grass Won´t Pay No Mind. Como o título sugere, ela fala sobre um pássaro, pelo menos aparentemente. Analisando a letra mais calmamente vemos que na verdade ela fala sobre um homem que devido a um fim de relacionamento se vê sem esperança na vida, contemplando sua época de juventude quando era mais feliz. O Snowbird metaforicamente é usado na música como uma espécie de guia espiritual imaginário que guiou o homem quando mais jovem para momentos mais felizes em sua vida, representados aqui por uma paisagem de natureza, descrita de forma bela no primeiro verso. Logo em seguida, o homem faz a comparação da alegria de sua juventude com o vazio que está sentido no momento. No refrão pede ao Snowbird para se libertar, abrindo suas pequenas asas e voar para longe e afirma que se pudesse voaria com ele, dando a entender que se o Snowbird conseguisse se libertar ele também conseguiria. No terceiro, para fechar o homem reforça seu desejo de mudança, misturado com a mágoa de um fim de relacionamento mal resolvido. No final da música, percebemos que o Snowbird na verdade é um alter-ego do próprio homem que sempre travou vários diálogos consigo próprio para superar os momentos mais difíceis. Em suma: uma das melhores e mais complexas músicas da carreira de Elvis, totalmente disfarçada por uma melodia muito suave! O solo de guitarra introdutório foi posto posteriormente e esse take nos mostra a versão limpa e seca. Uma das melhores do cd, sem dúvida.
19- Rags to Riches (take 2): Outro excelente momento do cd, Rags to Riches é aquele tipo de música onde Elvis usa quase 100% de seu potencial vocal. Escrita por Richard Edler e Jerry Ross, ganhou uma versão em 1953 por Tony Bennet que alcançou o primeiro lugar na Billboard. Apesar da música ser excelente e a rendição de Elvis sublime a RCA errou pela milionésima vez em 71 ao lança-la como lado A de um single que alcançou a fraca posição de número 33. Interessante é notar que Elvis, percebendo que a música estava muito lenta, dá um gritinho ao seu estilo no final do take meio que justificando depois ao dizer que o ritmo estava muito lento. Ganhou uma única e surpreendente versão ao vivo no lendário show de Pitsburgh em 31 de dezembro de 76.
20- Where Did They Go Lord: Se você chegou ao final desse cd completamente impressionado com a qualidade do material, naturalmente vai fazer a seguinte pergunta: “Depois de músicas tão boas qual seria uma ótima para ser escolhida para fechar com chave de ouro?”. Eu lhes respondo Where Did They Go Lord. Desconhecida até para o fã mais ardoroso de Elvis, essa obra –prima foi uma das muitas vitimas da desastrosa política fonográfica da RCA, criticada tantas vezes nesse mesmo texto. Relegada ao lado B de Rags to Riches, da mesma forma que a igualmente ótima The sound of Your Cry, essa canção não iria ver a luz do dia em um álbum até a década de 90. Se você está achando estranho os meus rasgados elogios a ela, lhes proponho ler sua letra e escuta-la. Isso vai valer mais que qualquer texto que eu aqui bote. Essa balada (sim é uma balada, apesar de muitos a classificarem erroneamente como um Gospel, devido à presença do nome LORD em seu título) é sobre um tema recorrente na carreira de Elvis: o fim de um relacionamento. O que a difere de outras gravadas é sua belíssima melodia e letra muito bem escrita que começa com o protagonista da história se lembrando das promessas feitas durante o relacionamento, do amor que nunca iria se acabar. No final ele se pergunta: Meu Deus, para onde eles foram? No segundo verso o autor diz que o para sempre escapou de suas mãos e os seus sonhos foram embora com o vento. No refrão notamos o verdadeiro teor da música com Elvis se lamentando, afirmando que preferia ter perdido-a para outro, a saber que ela simplesmente o abandonado. No último verso Elvis fala da paixão que a ela foi delegada e sobre a verdade em que se apoiou todo o sentimento do seu relacionamento, citando ainda a esperança que o tornaria forte para superar o fim e grita, como a própria música declama e exige: Para onde eles foram Meu Deus??? Aqui, como em muitas ocasiões em sua fantástica carreira, a música é Elvis e Elvis é a música. Esse take é muito parecido com o master, faltando só um pouco mais de emoção no final. Mas nada que prejudique o resultado final. Resumindo: um grande momento da carreira de Elvis relegado ao esquecimento. Infelizmente.

Se você não possui esse cd eu recomendo consegui-lo com a maior urgência possível. Elvis e a banda estão perfeitos, a seleção musical é ótima e você ainda vai descobrir um tesouro perdido atrás do outro e ainda reviver algumas músicas que você gosta, que aqui soam como se fossem novas. A qualidade sonora é impecável e o selo FTD está de parabéns. Se você pensa que Elvis na década de 70 era um balofo e decadente cantor de Vegas, precisa escutar essas canções. Garanto que os seus “ídolos” de atualmente teriam um colapso nervoso, mas não conseguiriam gravar material como esse da forma como Elvis fez há mais de 35 anos. Obriga Ernest Jorgensen. Os fãs agradecem!!

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