A idéia do Lago dos Cisnes nasceu em 1871, quando Tchaikovsky passava o verão em Kamenka, Ucrânia, na casa da irmã Alexandra Davydova. Naquele raríssimo momento de lazer e convívio, entregou-se à criação de um balé-miniatura dedicado aos sobrinhos e chamou-o Lededione Ozero (O Lago dos Cisnes).
Não passava de uma brincadeira, inspirada num conto do alemão Johann Karl August Musäus. Mas todos da família ficaram tão animados com o resultado que a pequena peça acabou ganhando até uma montagem caseira, na qual Modest, irmão e agente de Tchaikovsky, protagonizou o Príncipe Siegfried.
A mera diversão animou Tchaikovsky. Cresceu. Transformou-se num projeto de fôlego, em quatro atos. Apresentado ao dramaturgo Vladimir Begitchev, dirigente dos Teatros Imperiais de Moscou, foi por ele aprovado com entusiasmo, adquirido por 800 rublos (quantia irrisória na época), e estreou sem sucesso no dia 4 de março de 1877 com o Bolshoi.
Anos mais tarde, em São Petesburgo, o francês Marius Petipa, brilhante dançarino e coreógrafo, remontou-o inteiramente, com a colaboração do assistente, o russo Lev Ivanov. Com esta versão (mantida até o presente) o balé representa a verdadeira criação de Tchaikovsky, baseada em argumento de Begitchev. registro da reestréia, em 17 de janeiro de 1895, dois anos após a morte do compositor: sensacional.
Daquela data em diante, O Lago dos Cisnes passou a ser referência obrigatória no repertório do balé clássico. Sem dúvida, creditada em boa dose à sensibilidade de Pepita (responsável pelos atos I e III), então diretor absoluto do Corpo de Baile do Teatro de São Petersburgo, e ao coadjuvante Ivanov, que assinou a coreografia dos atos II e IV.
O enrredo é encantador, entremeado de suspense, e conduzido a um epílogo triste. (Houve companhias que ousaram incluir-lhe trechos "alegres" de outros autores e até um happy end - certamente uma afronta à concepção dramática de Tchaikovsky).
O brilho da narrativa, tecido pela música sedutora, cheia de alternâncias (desde o insinuante moderato assai da introdução até o sereno moderato do grande final) sela o fascínio do compositor pela inexorável força do destino. Se Odete amava Siegfried, algo inevitável se oporia à sorte de ambos, pois ser feliz é impossível.
O Lago dos Cisnes conta a história da princesa Odete que, tendo sido transformada em cisne, toma sua verdadeira forma numa noite especial. O príncipe Siegfried apaixonou-se por ela e deseja romper o encantamento, escolhendo-a como esposa durante o baile do rei. Mas Rothbart, o bruxo maligno que a enfeitiçara, substitui Odete por sua própria filha, Odile. Enganado de início Siegfried enfim descobre o estratagema. Sôfrego, corre à floresta, almejando reencontrar Odete e ratificar-lhe o amor. A princesa o perdoa. Mas o lago de agiganta, sob a ira do bruxo. Odete e Siegfried são atraídos pelas águas e se afogam.
Inesquecíveis trechos da obras têm merecido interpretações isoladas - justificadas pela beleza e apelo popular.
Destaca-se, por exemplo, a curta cena de abertura do ato II (moderato), em que a melodia (tema dos cisnes) apresentada pelo oboé, comentada depois por metais, desenvolvida pelas cordas e, em seguida, pela orquestra inteira, define o clima exuberante do balé.
No cenário, Siegfried e seus amigos contemplam os cisnes. Efeito semelhante provoca o pas des deux, segundo divertimento do balé, no início do ato I. Integrado por duas valsas, separadas por um movimento contrastante, produz uma sugestiva diversidade de matrizes. (Fica na memória o andante-allegro: doce e lento solo de violino antecede surpreendente e agitada dança.) Mas é no tempo di valse do ato I que O Lago dos Cisnes revela toda a sua magnitude. Num lá maior cativante, Tchaikovsky constrói uma valsa antológica.
Trata-se, enfim, da grande celebração, na qual Siegfried e Odete trocam juras de amor eterno. E pitoresco é o allegro moderato da Dança dos Cisnes, no ato II: passagem célebre em que o fagote sublinha a alegria dos cisnes pela notícia do amor de Odete. Segue-se então um longo episódio, que realça o temor do casal apaixonado, onde a harpa ondulante entrega ao violino e depois ao violoncelo um solo tocante. O temor soma-se ao heroísmo na cena final do ato IV quando cinco movimentos (andante, allegro agitado, alla breve, moderato e maestoso) desenham e sustentam a atmosfera da destemida saga do príncipe, em busca do perdão de Odete. Na abertura da cena, Tchaikovsky empresta o núcleo temático de Voievoda, a sua primeira ópera, escrita em 1869. Afeito à leveza dos divertimentos, o compositor inseriu vários no balé: czardas, danças russa, espanhola, napolitana, e a animada Dance de Coupes: Tempo di Polacca, que injeta ao quase desfecho do ato I um intensa vitalidade.

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