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terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Um jovem tenor, de olho no mundo

Jean William, de 23 anos, é um 'diamante a ser lapidado', segundo seu orientador, o maestro e pianista João Carlos Martins Jean William, de 23 anos, tinha tudo para ser mais um anônimo das incontáveis famílias Silva do País, mas a paixão pela música e a dedicação aos estudos o projetaram no mundo da ópera. Nascido em Sertãozinho e criado em Barrinha, o tenor Jean William, que hoje se apresenta na Igreja Matriz de Santa Terezinha de Campos do Jordão, é considerado pelo maestro João Carlos Martins, um "diamante a ser lapidado". Martins o conheceu em abril e já projeta para o jovem estudos em Nova York, no início de 2010. "O Jean está ganhando "cancha de palco" e tem emocionado o público", diz o maestro, que o comanda na Bachiana Jovem Sesi-SP, na Bachiana Filarmônica e também no Quinteto Bachiana de São Paulo. Juntos, gravaram um CD de clássicas e populares com arranjo de cordas, a ser lançado depois do carnaval, em março.

A história de Jean começou em Barrinha, cidade da região de Ribeirão Preto que vive da cultura canavieira e atrai migrantes de várias regiões do País em épocas de safra. O avô Joaquim é boia-fria aposentado, autodidata em violão, violino e acordeão. Com a separação dos pais, aos 3 anos, Jean ficou com os avós, enquanto a mãe Maria Madalena se casou outra vez. O pai Valdecir, pedreiro, só o viu duas vezes depois disso - o que nunca foi problema para o menino, que ouvia músicas caipiras às madrugadas, quando o avô se preparava para trabalhar. Ouvia e aprendia. "Nada propiciava que eu fosse para a música clássica", diz o tenor. "Ele cantava em italiano e ninguém entendia", sorri a avó Iraci.

Aos 8 anos, passou a cantar no coral da igreja, enquanto o avô tocava violão. Nas duas vizinhas de sua casa ele ouvia músicas italianas e se apaixonou pela clássica aos 10 anos, embora no início ouvisse as populares, de Andréa Bocelli, Rita Pavone e até Zizi Possi, em italiano. Fez o ensino médio em Sertãozinho e num festival escolar, em maio de 2003, ao cantar Con Te Partiro, de Bocelli, encantou uma das ouvintes, Julia Guidi dos Reis. "É a reencarnação do Caruso!", dizia Julia, comparando-o ao italiano Enrico Caruso. Não conseguia ver o minúsculo Jean (hoje com 1,63 m), encoberto pelo púlpito. Procurou-o e falou sobre a sua intuição. "Não sei quem foi Caruso, mas se for bom, aceito", respondeu o adolescente de 16 anos. Julia o convidou para ir à sua casa, mas, tímido, Jean não foi. Ela insistiu e tornou-se mecenas do cantor.

Para que tivesse mais condições de estudar, Jean mudou-se para a casa de Julia, com o apoio do marido Pedro (médico, que descobriu depois que fez o parto do garoto) e dos quatro filhos do casal. Fez cursinho, aulas particulares (fala fluentemente inglês, espanhol, italiano, francês e tem boa pronúncia de alemão) e ingressou no curso de música erudita da Universidade de São Paulo, em Ribeirão Preto, em 2004. Com o teclado presenteado por Julia, ele passou a tocar e cantar em casamentos - os dois últimos foram em 26 de setembro. "Ela me emancipou", recorda Jean, fã de Schubert, Schumann, Mozart, Rossini e Donizetti. "Se ele não vem aqui, liga e pergunta como estamos", comenta a avó Iraci. "Adoro a comida da minha avó e do que me ensinou: "Calado se vence", "não brigue, mude, inove"", diz Jean.

Em 2000, ele entrou pela primeira vez no Theatro Pedro II, em Ribeirão Preto. Estava num coral, não como solista. Fez outras apresentações no Pedro II, mas como solista da Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto. E, ao ver o maestro Martins no Programa do Faustão, em meados de 2008, imaginou trabalhar com ele. Por intermédio de amigos, conseguiu marcar uma entrevista. Na casa de Martins, cantou Ombra Mai Fu, de Hendel, e no dia seguinte, estreou em concerto com a Bachiana Filarmônica, no Clube Pinheiros, para 2.200 pessoas. Hoje é estagiário do Sesi na Bachiana Jovem, grava um CD e se prepara para estudar na Julliard School, em Nova York. Em 19 de setembro, ele vai cantar duas árias de Carlos Gomes com a Bachiana Filarmônica sob regência de Martins, no Lincoln Center, em evento da ONU.

Ele faz planos. "Quero viver do curso de música erudita, não ser tenor de seis meses, apenas", garante Jean William, fã de Luciano Pavarotti e que imagina um dia conhecer Plácido Domingo, diretor da Washington National Opera. Faz aulas de ópera, vocaliza todos os dias, se apresenta duas ou três vezes por semana, deixando de lado a cerveja que gosta e até os namoricos passageiros. "Ainda estou em choque", revela o tenor. "Em 2010 é a hora da verdade para o Jean e creio que, se Deus quiser, coloco-o no Metropolitan Opera, em Nova York, em seis ou sete anos", aposta Martins, acreditando no potencial de seu único solista. "Se ele não conseguir patrocinador, vamos tentar ajudá-lo de outras formas, pois ele é iluminado, nunca desmereceu os estudos e o mundo tem de ouvi-lo, não apenas nós", avisa Julia. Jean William até antevê e projeta as rotinas de viagens: antes fazia o trajeto de ônibus de Sertãozinho a Barrinha; no futuro será o aéreo entre São Paulo e Nova York.

Fonte: Estadão - 19/12/2009

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