
Os valores que os homens dos séculos precendentes respeitavam não nos parecem, hoje, importantes. Eles consagravam todas suas forças, todos seus esforços e todo seu amor a construir templos e catedrais, ao invés de dedicarem-se à máquina e ao conforto. O homem de nossa época dá mais valor a um automóvel ou a um avião que a um violino, mais importância ao planejamento de um aparelho eletrônico que a uma sinfonia. Pagamos preço bem alto por aquilo que nos parece o cômodo, o indispensável; sem nos darmos conta, rejeitamos a intensidade da vida em troca da sedução enganadora do conforto - e aquilo que verdadeiramente perdemos, jamais recuperamos.
Essa modificação radical da significação da música processou-se nesses últimos dos séculos com uma rapidez crescente. E ela fez-se acompanhar de uma mudança de atitude face à música. E ela fez-se acompanhar de uma mudança de atitude face à música contemporânea, aliás à arte em geral, porque, como a música era parte essencial da vida, ela tinha forçosamente que nascer do presente. Ela era a língua viva do indizível e só os seus contemporâneos podiam compreendê-la. A música transformava o homem - tanto o ouvinte como o músico. Devia ser sempre criada com o novo, da mesma forma que os homens deviam construir para si novas moradas que correspondem a um modo de existência, a uma nova modalidade de vida espiritual. da mesma forma, já não se era mais capaz de compreender, nem de utilizar a música antiga, aquela das gerações passadas; contava-se, então, de admirar-lhe meramente a perfeição artística.
Depois que a música deixou de ser o centro de nossa vida, tudo mudou de figura; como ornamento, ela tem que ser antes de tudo "bela". Não deve de forma alguma perturbar ou assustar. Só que a música, em nossos dias, não pode satisfazer tal exigência, porque, como qualquer arte, ela é o reflexo da vida espiritual de seu tempo, portanto o presente. Mas, numa confrontação honesta e séria com a nossa condição espiritual e intelectual, ela não pode ser apenas bela, já que intervém em nossa vida e, por isso, perturba. Daí a contradição: nós nos afastamos da arte atual por ser perturbadora, talvez pelo próprio fato de que a arte tenha de perturbar. Não estavamos, entretanto, buscando nenhum tipo de confrontação, só queríamos uma beleza que pudesse nos distrair do tédio do dia-a-dia. Assim, a arte - e a música em particular - se tornou um simples ornamento e nós nos voltamos para a música histórica, para a música antiga uma vez que, nesta, encontramos a beleza e a harmonia tão almejadas.
A meu ver, esse retorno à música antiga só se deu por causa de uma série de terríveis mal-entendidos. Tudo o que consumimos é uma bela música que o presente não pode de forma alguma nos oferecer. Ora, tal música, a simplesmente "bela", jamais existiu. Se a beleza é componente de toda e qualquer música, nós não podemos fazer disso um critério determinante, sob pena de estarmos negligenciando e ignorando todos os demais componentes. Mas, depois que deixamos de compreender, ou talvez que deixamos de querer compreender a música como um todo, nos foi possível reduzi-la ao belo e, de certa forma, nivelá-la. Só que, ao troná-la apenas um componente agradável de nossa vida cotidiana, ficamos até incapazes de compreender a música antiga - aquela que chamamos realmente música - em sua totalidade, pois nesse caso já não podemos mais reduzi-la à estética.
Encontramo-nos, hoje, portanto, numa situação praticamente sem saída: acreditamos no poder e na força de transformação da música, mas somos obrigados a constatar que, de modo geral, a situação intelectual de nossa época a retirou de sua posição central, impelindo-a para a periferia - era movimento e vida e, hoje, é algo simplemente belo. Não é possível, porém, nos conformarmos com isso, eu diria mesmo que, se fosse obrigado a admitir a irreversibilidade da situação da arte, imediatamente deixaria de fazer música.
Acredito, por conseguinte e com esperança cada vez maior, que dentro em breve todos nós vamos perceber que não podemos renunciar à música - já que esta redução absurda de que falo não passa, na verdade, de uma renúncia - e que podemos confiar na força da música de um Monteverdi, de um Bach ou de um Mozart e no que esta transmite. Quanto mais nos esforçamos para compreender e apreender esta música, mais percebemos o quanto ela ultrapassa a beleza e o quanto ela nos perturba e nos inquieta pela diversidade de sua linguagem. E, no final, teremos de, através da compreensão da música de Monteverdi, Bach e Mozart, reencontrar a música de nosso tempo, aquela que fala nossa língua, aquela que constitui nossa cultura e a prolonga. Muitas das coisas que tornam nossa época tão desarmoniosa e tão terrível não resultariam do fato da arte não mais intervir em nossa vida? Será que não nos reduzimos, vergonhosamente, sem qualquer fantasia, apenas à linguagem do "dizível"?
Que teria pensado Einstein, que teria achado se não tivesse tocado violino? Não são as hipóteses audaciosas e inventivas frutos exclusivos do espírito de imaginação até que possam, pósteriormente, ser demonstradas pelo pensamento lógico?
Não foi por coincidência que a redução da música ao belo, por conseguinte àquilo que é por todos entendido, se tenha dado à época da Revolução Francesa. Na história, sempre houve períodos em que se tentou simplificar a música, reduzindo-a apenas ao elemento emocional, de modo a torná-la compreensível por todos. Cada uma dessas tentativas fracassou, conduzindo a uma diversidade e a uma complexidade novas. A música só será por todos compreendida se for reduzida ao primitivo, ou se cada um aprender sua linguagem.
A tentativa mais bem-sucedida de simplificar a música a fim de torná-la compreensível a todos deu-se em seguida à Revolução Francesa. Tentou-se, então, pela primeira vez, um grande Estado, colocar a música a serviço de idéias políticas: o minucioso programa pedagógico do conservatório foi o primeiro exemplo de uniformização na nossa história da música. Ainda hoje, músicos são educados para a música européia, no mundo inteiro, através desses métodos e, por meio deles, se explica aos ouvintes que não é preciso saber música para compreendê-la - basta que a julguem bela. Desse modo, cada um sente-se com direito e capaz de opinar sobre o valor e a execução da música - um ponto de vista que possivelmente se aplica à música pós-revolução, mas que de forma alguma vale para aquela compsta nos períodos anteriores.
Estou firmemente convencido de que é de importância decisiva, para a sobrevivência do espírito europeu, saber viver com a nossa cultura. Para tal, no que concerne à música, coloco duas condições:
Primeira: os músicos precisam ser formados através de novos métodos que correspondam àqueles de duzentos anos atrás. A música em nossas escolas não é ensinada como um língua, mas somente como uma técnica de prática musical; o esqueleto tecnocrático, sem vida.
Segunda: a formação musical geral deveria ser repensada e receber o lugar que merece. Assim, iremos perceber as grandes obras do passado por um novo prisma: aquele da diversidade que nos mobiliza e nos transforma e que também nos prepara para absorver p novo.
Todos nós precisamos da música, sem ela não podemos viver.
Fonte: Texto retirado do livro de Nikolaus Harnoncourt - "O Discurso dos Sons"

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