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quarta-feira, 14 de julho de 2010

'Música de Paulo Moura é eterna', diz viúva em velório

Emocionada e trajando um chapéu do marido Paulo Moura, a psicanalista Halina Grynberg chegou por volta das 11h40 desta quarta-feira (14) no velório do músico Paulo Moura. Ao entrar no salão do Teatro Carlos Gomes, no Centro do Rio, o local ficou em silêncio. Depois, todos amigos e admiradores a cercaram e prestaram homenagens.

"A música dele é eterna", disse em seguida para jornalistas: "Tenho a tarefa de manter essa excepcional pessoa, que era Paulo Moura, como o esteio da memória nacional".

Moura morreu de câncer no fim da noite de segunda-feira (12), na Clínica São Vicente, na Gávea, Zona Sul do Rio de Janeiro.

Amigos e fãs
Amigos, famosos e nem tão conhecidos, compareceram ao velório. Entre eles, estava Alcione, que disse que o clarinetista sempre foi uma referência para ela, que era filha também de um músico que tocava instrumentos de sopro.

Viúva de Paulo Moura recebe as homenagens de amigos e fãs do  maridoViúva de Paulo Moura recebe as homenagens de
amigos e fãs do marido (Foto: G1)

"Foi um dos primeiros músicos que conheci no Rio. Ele sempre dizia que eu tinha um pandeiro no peito", contou rodeada de outros músicos amigos de Moura.

O músico e dançarino Bob Lester, de 97 anos, que disse ter trabalhado com Carmem Miranda, falou que conheceu Paulo Moura ainda em São Paulo, mas ficou amigo mesmo em uma viagem para a Argentina.

"Em cultura, Paulinho era um mestre", resumiu.

O ex-aluno de Paulo Moura, saxofonista e subsecretário da Democratização e Difusão Cultural do Rio, Humberto Araújo, estava muito emocionado no velório. Ele chorou ao lembrar-se do amigo.

“Paulo Moura era um ícone da brasilidade, da ginga, da expressão da afrodescendência. Foi meu professor e mestre. Convivemos juntos por muito tempo. Paulo Mouro conseguia passar pela densidade de uma sonata para um maxixe sem transparecer um problema. E era simples para ele. Foi ele quem criou em mim um orgulho maior da nacionalidade. Quero ver quem agora eu vou imitar”, lamentou.

O pianista americano Cliff Korman que conheceu Paulo Moura há 30 anos também foi prestar a última homenagem ao músico. “Comecei como aluno, viramos parceiros e terminamos quase família. Tinha visão de músicas sem barreiras. Sempre buscava ligações entre as tradições. Sempre querendo compartilhar. Pra mim, como americano, marcou o mundo. Muitos músicos carregam Paulo no mundo”.

Um foto do clarinetista foi colocada sobre o caixãoUm foto do clarinetista foi colocada sobre o
caixão (Foto: G1)

“É uma perda especialmente para a cultura do Rio e para a música instrumental, que é tão sofrida. Ele é um dos maiores músicos do mundo, posso dizer. É uma perda irreparável”, completou a secretária municipal de Cultura, Ana Luisa Lima.

Na terça, o ministro da Cultura, Juca Ferreira, divulgou nota oficial lamentando o falecimento do músico.

"Era um instrumentista e solista primoroso, além de compositor, arranjador e regente, conhecido e admirado no mundo todo", diz um trecho do comunicado, assinado pelo ministro.

Paulo Moura, de 77 anos, estava internado desde o dia 4 de julho.

Veja a íntegra da nota oficial:
"Sinto profundamente a morte de Paulo Moura.

Era um instrumentista e solista primoroso, além de compositor, arranjador e regente, conhecido e admirado no mundo todo. E ainda repartia toda essa sua criatividade com uma constelação de nomes de igual naipe, como Elis Regina, Milton Nascimento, Ella Fitzgerald, Nat King Cole e tantos outros.

Alcione foi um dos que homenagearam Paulo MouraAlcione foi um dos que homenagearam Paulo
Moura (Foto: G1)

A perda de Paulo é tanto mais pungente porque ele era uma figura humana singular. Por tudo isso, foi com admiração que em 2008 chancelei seu nome para a Ordem do Mérito, a mais alta condecoração no campo cultural.

Por isso, envio aos familiares, amigos, músicos e a todos os amantes da música refinada um abraço de conforto.

Juca Ferreira
Ministro de Estado da Cultura"

Biografia
Paulista de São José do Rio Preto, Paulo Moura nasceu no dia 15 de julho de 1932, numa família de instrumentistas. Aos 9 anos, ele pediu para estudar música e começou a tocar clarineta. Aos 14, ele entrou para o conjunto do pai.

Zeca Pagodinho mandou uma coroa de floresZeca Pagodinho mandou uma coroa de flores
(Foto: G1)

Paulo Moura gravou o primeiro dos 40 discos em 1956. Ele chegou a integrar a orquestra do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Moura tocou com grandes nomes da MPB, como Elis Regina e Milton Nascimento.

Um dos saxofonistas e clarinetistas mais requisitados no Brasil e no exterior, Paulo Moura foi reconhecido no ano 2000 com o Grammy - o maior prêmio da música mundial, com seu trabalho "Pixinguinha: Paulo Moura e os Batutas”. Em 2009, ele se apresentou na Tunísia e no Equador e lançou o CD AfroBossaNova.

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