Os 100 LPs mais vendidos dos anos 50 - Números ingleses contêm surpresas - o campeão é Elvis, com disco dedicado ao Natal e Papai Noel
Ruy Castro - 15.07.06 - Quando se pensa nos LPs marcantes dos anos 50, quais são os que vêm de estalo à cabeça dos pesquisadores? O insuperável Frank Sinatra Sings for Only the Lonely, da Capitol, com Sinatra de palhaço, batom e lágrima na capa? O de estréia de Elvis Presley, intitulado Elvis Presley, da RCA (ele, de paletó, boca aberta e violão), contendo Tutti Frutti e I Got a Woman? Ou a trilha sonora de Melodia Imortal (The Eddy Duchin Story), da Decca, com Kim Novak e Tyrone Power numa cena do filme e com o quadrado e competente Carmen Cavallaro (sim, era homem) ao piano? Três discos campeões de vendas e, dependendo do gosto do leitor, dezenas de outros também poderiam ser citados, todos representativos da década. Mas, se você quiser saber quais foram os
LPs daquele tempo que realmente mais venderam, prepare-se para
surpresas. Um livro, Os 100 Álbuns Mais Vendidos dos Anos 50, por
Charlotte Greig, publicado pela inglesa Amber Books e lançado pela
Editorial Estampa portuguesa, acaba de fazer um balanço do período.
(Os três citados estão entre os 100, mas, respectivamente, em 25º,
21º e 76º lugares - veja a lista dos 20 primeiros nesta página.) Charlotte usou três critérios para produzir sua tabulação. O
principal foi o número de discos de ouro e de platina conferidos aos
LPs pela RIAA (Associação Americana da Indústria Fonográfica). Esses prêmios costumavam ser sérios. Equivaliam, respectivamente, a mais de 500 mil e de 1 milhão de discos vendidos nos Estados Unidos - e, quando um artista chegava a essas marcas, o eixo da Terra sofria uma ligeira alteração. Os outros dois critérios foram a colocação alcançada pelos ditos LPs nas listas da revista Billboard e o número de semanas em que esses discos ficaram na lista. É verdade que só a partir de 1955 a Billboard começou a fazer listas de LPs e, com isso, os discos produzidos na primeira metade da década ficaram
prejudicados. Mas não havia outro jeito porque, somente àquela
altura, os LPs (ou álbuns, como os americanos sempre os chamaram)
desbancaram os singles (os discos avulsos, em 78, 45 e 33 rpm) em
volume de vendas. É verdade que, pelos cânones da indústria fonográfica, o LP sempre foi o território dos adultos. A maioria dos álbuns era feita para o gosto e poder aquisitivo desta faixa, a qual comprava música de concerto, jazz, trilhas sonoras, scores de musicais da Broadway, orquestras de metais ou de cordas e, não por último, os cantores populares "sérios". O adolescente, se quisesse discos mais ao seu estilo, que se contentasse com os singles. Pode-se argumentar que, com isso, os primeiros ídolos do rock and roll, tipo Little Richard, podem ter saído perdendo na pesquisa, mas não se esqueça de que cantores de primeira linha como Doris Day, Nat "King" Cole e Rosemary Clooney também eram grandes vendedores no formato avulso. Enfim, não apenas os singles não entraram na tabulação (e nem podiam), como Charlotte teve o cuidado de desconsiderar também os álbuns feitos a partir deles (por melhores que fossem algumas dessas coletâneas, como This is Sinatra, vols. 1 e 2, da Capitol) e compilações tipo Os Grandes Sucessos do Fulano ou do Beltrano. E, agora, a grande novidade da pesquisa. O que Charlotte Greig levantou não foram exatamente os 100 álbuns mais vendidos DURANTE os anos 50 - mas os álbuns lançados naquele período e o quanto eles venderam então e continuaram vendendo até hoje. Ou seja, de certa forma, ela produziu um histórico da evolução da música daquele tempo aos olhos de seus contemporâneos e aos nossos olhos. Um exemplo revelador, talvez o maior, é o do LP Kind of Blue, de Miles Davis, na Columbia. Ao sair em agosto de 1959, seu lançamento não alterou minimamente a agulha do sismógrafo (ao contrário do Time Out, de Dave Brubeck, lançado apenas dois meses antes pela mesma Columbia e que logo chegou a um surpreendente - para um disco de jazz - 2º lugar na parada geral da Billboard). Mas, nos 46 anos que se seguiram, Kind of Blue atropelou na preferência popular e vendeu mais de 3 milhões de LPs ou CDs até agora, tornando-se, incrivelmente, o 3º disco mais vendido entre os produzidos nos anos 50 em qualquer gênero. Em compensação, qual menor de 50 anos atualmente ouviu falar ou ainda se lembra de Mitch Miller, diretor artístico da Columbia, inimigo mortal de Sinatra e cujos discos de "sing along" - cantar junto - se vendiam aos milhões? Ou de Jackie Gleason, famoso comediante da TV americana e líder da orquestra símbolo da música de elevador? Ou do insípido Kingston Trio, especialista em folk, baladas e calipsos? Seja como for, esses nomes tiveram de vender horrores no lançamento para continuar se sustentando na lista meio século depois. (Na verdade, todos os 100 discos citados venderam de 500 mil cópias para cima - número que, considerando- se a quantidade de vitrolas e toca-discos então existentes, teria de ser talvez multiplicado por dez para se avaliar o que significariam hoje.) Se voltar a ser feita daqui a dez anos, a lista mudará. Por exemplo: Johnny Mathis, com seis discos entre os 100 mais (inclusive dois entre os dez primeiros, Christmas Album e Heavenly), tende a perder espaço, enquanto Sinatra, sem nenhum entre os dez primeiros, mas com 11 entre os 100, tende a ganhar - praticamente toda a sua produção na Capitol foi citada, além dos discos de filmes como Pal Joey (Meus Dois Carinhos) e High Society (Alta Sociedade), e eles continuam a vender muito. No entanto, quando se analisam os vinte mais vendidos, o que se encontra? Três discos de Natal - e não apenas o de Sinatra, A Jolly Christmas (que, com seu 1 milhão de cópias, vendeu mais do que todos os seus famosos clássicos conceituais) , mas também o número 1 entre os 100, o campeão absoluto em vendas da década de 50: Elvis' Christmas Album - com 7 milhões de cópias. Sim, o disco que mais vendeu do cantor que revolucionou tudo com seu gingado lascivo de virilhas, do homem que virou a música de pernas para o ar e simbolizou toda uma geração de jovens rebeldes, foi um disco de... Natal. (Contendo, aliás, três músicas que falam de Papai Noel: Santa Claus Is Back in Town, Here Comes Santa Claus e Santa, Bring My Baby Back.) Fico a imaginar os fãs de Elvis, aqueles rapazes de blusão de couro, botas e longas costeletas, quem sabe com um soco-inglês no bolso da calça jeans bem justa e uma tremenda Harley Davidson estacionada na porta. Estamos na noite de 24 para 25 de dezembro. Pela janela da casa, pode-se vê-los ao pé da árvore de Natal, trocando presentes com seus familiares, destrinchando o peru, comendo rabanadas e, com o suave Elvis' Christmas Album na vitrola, entoando hinos em coro ao bom velhinho.

Nenhum comentário:
Postar um comentário