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quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Futuro maestro vê concerto pela 1ª vez

Lucas dá aula em três bandas, mas nunca tinha visto orquestra ao vivo Na mochila, um par de baquetas. Que você quer ser quando crescer, Lucas? A resposta, incomum, sai sem pestanejar: "Maestro. Quero ser maestro." Lucas Camargo, de 14 anos, acaba de embarcar no ônibus que o levará a uma experiência inédita. É aluno da Escola Municipal Mestre Rodrigues Alves, no Tucuruvi, zona norte de São Paulo, e embora tenha o sonho de ser músico, toque percussão há oito anos na fanfarra da escola e seja o precoce professor de outras três bandas municipais, nunca ouviu, ao vivo, uma orquestra em ação. O ônibus está a caminho da Sala São Paulo, na Luz. E Lucas, falante e nervoso entre 15 colegas, vai assistir ao seu primeiro concerto.

"Não tiro as baquetas da mochila para nada", contou o menino, no caminho até a maior sala de concertos do País, onde se apresentou, anteontem, a Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB). "Sempre levo meu material, para a música me acompanhar onde for." Empolgado, fala sobre experiências, apreensão, sobre o que espera do concerto. "Vejo na TV a Sala São Paulo e imagino como deve ser grande esse lugar."

A música o acompanha onde for. Mesmo. Na memória do celular, faixas de MP3 compõem playlist inesperado, com sinfonias de compositores como o americano William Himes, autor de mais de 70 obras, e o grego Basel Poledouris, autor de temas de filmes como Conan, o Bárbaro. "Adoro temas de filmes orquestrados, da cadência e da batida da percussão." A essa altura, o ônibus já parava no Complexo Júlio Prestes.

O concerto de anteontem - espetáculo didático para professores e alunos da rede municipal, para incentivar formação de plateia - seria coordenado pelo maestro titular da OSB, Roberto Minczuk, e regido por James Judd, diretor artístico da Sinfônica da Nova Zelândia. "Falaram tão bem do maestro. Vou tentar falar com ele."

Lucas passou pela entrada do Complexo, olhou para cima, olhou de novo, e resumiu: "Lembra uma grande faculdade de música", disse o garoto, que ensaia quatro vezes por semana numa sala modesta da escola. "Ainda quero tocar aqui."

Ao entrar na sala, não conteve o deslumbre: "Parece um templo, vejo tudo, de qualquer lugar." Depois, sentado numa das cadeiras da câmara, Lucas ouve o primeiro chamado - serve de alerta de que os músicos vão subir ao palco - e não disfarça a impaciência. "Já é a orquestra? Cadê os músicos?"

Concentrado, Lucas aperta as mãos e treme as pernas. Quando os músicos aparecem, enquanto a plateia levanta num aplauso forte, ele observa brilho diferente. "Olha os sapatos deles! Imponentes de tanto que brilham!" A orquestra solta os primeiros acordes e o garoto que quer ser maestro, em pé, exclama: "Agora sei o que é Hino Nacional. É perfeito! Perfeito."

Depois do hino, os músicos apresentam aos 1.300 professores e alunos a Sinfonia Pastoral, de Beethoven, escrita em 1808. Lucas então se acalma e, com olhar já sereno, solta as mãos ao lado do corpo. A cada pouco, repete: "É perfeito! Perfeito." Ao fim do concerto, ele sorri. Nada diz até lembrar: "Vou tentar falar com o maestro."

No camarim, ao encontrar o maestro Minczuk, recebe conselho: "Você tem de entender o que significa reger uma orquestra. Deve procurar a Osesp (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo) e tentar assistir sempre que puder aos ensaios."

Lucas ouviu calado. Agradeceu e, antes de voltar ao ônibus, disse, com firmeza: "Tenho certeza do que fazer. Quero ser o maestro Lucas Camargo. E vou ser." Perseverança e decisão - outros conselhos do maestro Minczuk. Perfeito.

Fonte: Estadão - 03/12/2009

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