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quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

O Corsário - Abertura, Op.21

Hector Berlioz constitui um caso singular na história da música: considerada o principal compositor do Romantismo francês, viveu isolado e incompreendido em razão da independência de suas opiniões, novidade de sua música e hostilidade do ambiente à música séria. Nascido em pleno período das guerras napoleônicas, com as escolas fechadas, foi educado pelo pai, um médico esclarecido, que lhe ensinou línguas, literatura, história e geografia, além de iniciá-la na música. Mais tarde, aprendeu flauta e violão com professores contratados para viverem à pequena Côte-Saint-André ensiná-lo e a outros filhos de famílias locais. De forma autodidata, vasculhou tratados de harmonia e ensaiou as primeiras composições. Destinado pela família a estudar medicina, foi para Paris e cursou os primeiros anos, até que idas à ópera e a descoberta da biblioteca do Conservatório de Paris fizeram-no abandonar os estudos médicos. Na biblioteca, mergulhou fundo no estudo das partituras de Gluck, seu ídolo.

Tornou-se aluno particular de Lesueur, diretor da Capela Imperial ao tempo de Napoleão, e produziu as primeiras composições. Entrou depois (1826) para a classe de Leusuer no conservatório, e, em 1830, conquistou o Prêmio de Roma, com a cantata A Morte de Sardanapalo. Por essa época, já era grande o número de composições (canções, aberturas, cantatas e as Oito Cenas de Fausto). Nesse mesmo ano compôs e viu executar a Sinfonia fantástica, uma das obras capitais da música pós-Beethoven.

Partiu em seguida para Roma, para cumprir o período de pensão artística. A estrela em Roma, que deveria ser de três anos (Berlioz abreviou-a para dezoito meses), afastou-o temporariamente do fecundo ambiente parisiense, em meio ao qual vinha amadurecendo suas concepções, no contato com as obras de Beethoven e Weber, Shakespeare e Goethe, e conhando novos caminhos para a música francesa.

Ao regressar à França, em 1832, Berlioz procurou retomar a posição no meio musical parisiense, fez reapresentar a Sinfonia fantástica e sua continuação, o monodrama lírico Lélio, ou O Retorno à Vida e, após o casamento com a atriz shakespeariana Harriet Smithson, produziu uma série de obras inovadoras, como as sinfonias Haroldo na Itália e Romeu e Julieta, a ópera Benvenuto Cellini e o Requiem, entre outras. Para sobreviver, colaborou sucessivamente em cinco jornais, como crítico. Mas a frieza do público e da crítica fizeram-no empreender, a partir de 1842, contínuas viagens artísticas por diversos países da Europa, especialmente à Alemanha (esteve na Hungria, na atual República Checa e visitou a Rússia duas vezes), para reger suas obras, atividade que alternou com novas composições e a publicação de obras literárias, entre as quais as famosas Memórias.

A música de Berlioz não é familiar ao primeiro contato. Suas melodias não obedecem a padrões previsíveis, mas constituem uma espécie de prosa musical, cheia de surpresas e contornos inesperados. A inspiração literária informa a totalidade de sua produção. Não se trata, porém, de uma redução da linguagem das palavras à música, mas de deixar que o fluxo expressivo do texto poético conduza o fluxo musical, contrariando uma tradição da música clássica, de obedecer à própria lógica. Em Berlioz, os gêneros tradicionais da sinfonia abstrata, do concerto, sonata e quarteto não encontram acolhida; a expressão conduz a construção, e o elemento timbre desempenha papel fundamental. Nesse sentido, Berlioz é o pai da orquestração moderna, a quem a maioria dos compositores, em especial os da escola russa, deve os ensinamentos.

A abertura O Corsário é uma das sete aberturas de concertos de Berlioz, além das aberturas de óperas. Não se conhece precisamente sua gênese, mas, publicada em 1852 com esse título, fora executada em 1845 como La Tour de Nice, o que faz pensar que tenha relação com as duas estadas de Berlioz naquela cidade, em 1831 e 1844. Num catálogo de 1846, aparece com o nome de Le Corsaire rouge, título francês de um romance de Fenimore Cooper muito apreciado por Berlioz. Finalmente, na publicação, aparece com o título Le Corsaire, favorecendo associações com o poema homônimo de Byron. entre a execução de 1845 e a publicação, foram feitas modificações substanciais.

Nessa abertura, Berlioz lança mão de um processo já adotado ateriormente, de fazer preceder o adagio introdutório por um breve allegro, atens do allegro principal. A melodia do adagio, de caráter nobre, tipicamente berlioziana, "parece clamar por um texto", como observou um crítico. Segue-se o allegro assai, com o mesmo material do allegro introdutório. O plano geral é o de uma forma sonata com algumas liberdades: o segundo tema utiliza idéia do primeiro, a seção central desenvolve um motivo originado no adagio e, na recapitulação, o segundo tema é seguido por um novo desenvolvimento. Neste, uma passagem notável, de escalas ascendentes nas cordas contra o tema nos metais, leva à grandiosa reapresentação do segundo tema, antes do final.


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