"E retorne ao lar ao som da música". As palavras de Shakespeare utilizadas pelo compositor Ralph Vaughan Williams em sua Serenata serviram perfeitamente ao espírito do concerto de reinauguração do Teatro Municipal de São Paulo, na noite de sexta-feira.
No palco, a Sinfônica Municipal, regida por Abel Rocha, seu regente titular e novo diretor artístico da casa. O grande personagem da noite, no entanto, foi o próprio teatro, devolvido à população após três anos de reformas.
A orquestra abriu a noite com o Concerto para Quarteto de Cordas e Orquestra, do brasileiro Radamés Gnatalli, com a participação do Quarteto da Cidade de São Paulo; na sequência, a Suíte Festiva, de outro brasileiro, o carioca radicado em São Paulo Ronaldo Miranda. Na segunda parte, a Serenata de Vaughan-Williams, com a participação de dezoito solistas - cantores que ao longo de sua carreira viveram momentos importantes no palco do Municipal, como as meio-sopranos Celine Imbert e Denise de Freitas, as sopranos Adélia Issa, Claudia Riccitelli e Martha Herr, os tenores Marcos Thadeu e Marcelo Vanucci, e os barítonos Luis Orefice e Douglas Hahn. E, por fim, o Te Deum, de Bruckner, com quatro solistas - Rosana Lamosa, Sílvia Tessuto, Geilson Santos e Carlos Eduardo Marcos - e os músicos do Coral Lírico Municipal.
Foi uma noite especial, mesmo no quesito extra-musical. Abel Rocha, dirigindo-se ao público, disse que a intenção era reunir todos os corpos artísticos da casa - ainda que na sua conta tenham ficado de fora o Coral Paulistano e a Orquestra Experimental de Repertório; da mesma forma, reunir o time de solistas para a Serenata e programar o Te Deum tinha como objetivo não deixar dúvida sobre a vocação do teatro para a música lírica e grandes obras corais. Com a noite de gala para autoridades e convidados da prefeitura transferida para o sábado, na sexta o teatro estava ocupado por artistas - e a ocasião permitiu homenagear cantores e maestros veteranos (como Niza de Castro Tank, Neyde Thomas e Tulio Collacioppo) cujas trajetórias se misturam à história do próprio teatro.
Em outras palavras, a noite de reabertura do Municipal esteve revestida de simbolismos diversos. Por sua vez, as lágrimas dos artistas sobre o palco e o aplauso emocionado do público pareciam lembrar como o Municipal estava fazendo falta - e a importância que o teatro tem no imaginário da cidade. Com isso, porém, vem grande responsabilidade. E, a partir de agora, a nova gestão deve começar a mostrar a que veio. Símbolos, em especial depois de três anos sem o Municipal, são bem-vindos. Mas não dão conta, sozinhos, do recado.
Fonte: 13 de junho de 2011

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